4.03.2007

Cafeína e maçãs

Passei esse tempo todo a contemplar a crescente semelhança entre minha mãe e a mãe dela - minha avó, aliás.
Não só a contemplar, mas a descrever e criticar com uma implicância que chegava a irritar.
Semelhanças que vão desde reclamações repetidas - usadas como puro remédio para o tédio - até o modo de pensar e agir, e a formação farmacêutica que elas acham que têm.

Quando eu me dei conta que essas semelhanças provavelmente também se davam com minha avó e a mãe dela - adivinhem... Minha bisavó! - confesso que eu quis beber xampu. Passado o susto e feita a lavagem estomacal, vi-me obrigada a conviver com essa história.
Minha mãe é maravilhosa, não nego. Carismática e engraçada, mas ela obviamente não sabe disso... Ela sabe conversar, raramente se deixa levar pela raiva, é mais calma e mais paciente do que eu. Mas, minha reclamação - e não é fuga do tédio - é quanto à minha semelhança às coisas que me irritam nela.
Começo então a pensar que a culpa é minha. Semelhanças não surgem do nada, certo? Bom, talvez surjam...

Outro dia eu continuo a falar sobre isso.

Voltando do colégio para casa, hoje, caminhava ao meu lado - aparentemente apostando corrida comigo - uma mulher com quatro sacolas de supermercado. Demorei um pouco para me desconcentrar em dar passos mais rápidos do que os dela, então ofereci ajuda. Ela aceitou e paramos de competir. Siga meu exemplo, EUA!

Vale tanto a pena ouvir um "Deus lhe pague minha filha!", que toma conta de mim, nos últimos tempos, uma síndrome de Amélie Poulain. Ajudar, ajudar a ajudar, ajudar sem precisar... Ajudar, simplesmente ajudar! Tenho andado romântica, mesmo...

Meus textos ultimamente têm sido como um borrão de palavras, quase soltas. Não parei para pensar se gosto disso ou não. Tenho sempre a sensação de que elas só estão mal organizadas, mas, que no fundo, chegam perto de mostrar o que eu quero dizer.

Quase não se tem notícias do Acre. Fico sempre pensando se é assim no Brasil todo - exceto no Acre, claro.
Será que lá não acontece nada que interesse aos cariocas? Meu pai diz que lá tem aranhas caranguejeiras assim como temos baratas, aqui. Eu passei a olhar com mais carinho (leia-se "matar com pena") para as baratas, depois de saber disso.

Chega de devaneios por hoje. Pelo menos dos meus. Vou ler os de alguém.

3.11.2007

Os incomodados que não me incomodem



Será que um acontecimento ruim leva a outro?

Outro dia eu estava conversando com um amigo, estávamos falando de como as pessoas estão carente de atenção hoje em dia. Antes - "na minha época" - quando um sujeito perguntava pro outro se estava tudo bem, era quase uma retórica. Fale a verdade, você não quer mesmo saber se a pessoa está bem ou não. Hoje, não. Hoje as pessoas levam a sério esse tipo de pergunta.
"Oi querida, tudo bem?"
"Tudo, bem sim. Quer dizer, mais ou menos né..."
"Ah, é né?"
"Bom, já que você perguntou, não está tudo bem, não. Tenho tido problemas com o resto do mundo, e a culpa não é minha, você me entende né? Porque bla bla bla, bla bla bla..."
Te narram uma vida sem que você tenha pedido.

Ah, vamos falar sobre outra coisa, meu povo. Um mundo acontece em nossa volta, lembra?
Schopenhauer dizia que quando não temos problemas suficientemente grandes para nos desesperarmos, nos desesperamos com os que temos, mesmo que sejam ridículos. Não com essas palavras, claro. Ele deve ter sido bem mais grosso.

Hoje eu devia ter ficado em casa e ter um domingo contemplativo.
Domingos servem para isso mesmo, afinal. Viu no que dá quebrar as regras?

Vou ver um episódio de O Amigo do Rei, antes que eu comece a te contar meus problemas.

3.01.2007

Euforia

Vou aproveitar o momento e mudar a cor e o corte do cabelo. Vou me matricular no curso de francês e no de corte e costura. Vou percorrer o litoral do país de bicicleta. Vou aprender a andar de bicicleta, antes. Vou agarrar o vizinho, fazer 2.400 abdominais. Vou pintar a parede da sala de abóbora e talvez eu pinte o cabelo da mesma cor. Vou apagar todas as músicas tristes do meu computador, vou rasgar as cartas do meu ex. Vou irritar um chato, correr atrás de um cachorro que corre atrás de um carro que corre de tudo, menos de nós. Não vou entregar o livro na biblioteca dentro do prazo, talvez eu nem entregue. Eu vou surpreender e chegar no horário. Vou usar branco. Vou negar ajuda, vou andar na chuva. Vou xingar alguém do Tele marketing, vou aprender a fazer música. Vou fazer uma música com meu nome, já que ninguém fez. Vou pegar algumas coisas na dispensa e vou levar para a Etiópia para alguma família faminta. Vou me juntar ao Greenpeace e fazer uma barreira humana para não derrubarem aquela árvore. Vou negar cola na prova de Português e colar chiclete embaixo da carteira. Vou escrever uma peça de teatro contando a história do canudo. Vou presenciar uma chuva de rãs, vou dizer pessoalmente ao Silvio Santos que ele é ultrapassado em quase tudo, e que mesmo assim eu gosto dele. Vou avisar à mãe de uma amiga que ela não tem mais 23 anos. Vou passar um dia inteiro vendo filmes e tomando suco de melancia. Vou pegar a moto sem meu pai saber e dar uma volta, que seja na garagem, mas eu vou. Vou usar a blusa rosa que me engorda. Vou cantar Cruisin no videokê de algum boteco. Vou torcer para o bandido, vou dar um tiro no Papa. Vou pegar todos os meus brinquedos e doar para um orfanato. Vou tomar uma pinga com o mendigo que me pede dinheiro para comprar leite para os supostos filhos. Chega de hipocrisia, se é pinga que ele quer, pinga ele terá. Vou gritar o mais alto que eu possa agüentar, do alto de um penhasco. Vou mergulhar com os golfinhos. Vou arrumar a cozinha.

2.02.2007

Hiper-diagnosticando: Amor

Estamos em tempo de exageros, e nós inclusive exageramos em tudo, como se coisas intensas durassem mais. Exageramos para tentar parar o tempo. Em vão. Entristeço-me ao ver como as pessoas acham que estão amando. Podem me chamar de invejosa ou despeitada, mas mais metade das pessoas que conheço e se dizem infinitamente apaixonadas pelo parceiro ou pela parceira, se esquecem delas amanhã ou depois. É claro que eu acho válido viver intensamente, aproveitar cada momento, usufruir da vida o máximo que pudermos por segundo. O que eu acho falta de senso é um indivíduo, num acesso de euforia, dizer “eu te amo” no primeiro encontro, digamos. Quem vê de fora - em Widescreen - vê melhor, acreditem. Hoje, chega-se ao cúmulo onde simpatia é considerada amor. Ninguém ama ninguém antes conhecer o suposto amado, e isso leva tempo. Andamos muito preocupados com quantidade, qualidade e scraps, que acabamos esquecendo de nos questionar, de ir a fundo, de no revelarmos a nós mesmos. Queremos logo nos revelar ao próximo. Não amamos nem a nós mesmos, e já estamos dizendo “eu te amo” para a pessoa que pagou o jantar. Seria bom se passássemos a olhar para o nosso interior, ao invés de nos olhar-mos no espelho. Arrancar de nós toda essa superficialidade. Seria bom que conhecêssemos o amor por meio de nós mesmos, para poder reconhece-lo no próximo. Amarmos-nos primeiro, para depois compartilhar esse sentimento com o outro. Por que será que deixamos o egoísmo de lado só quando não deveríamos? Quem não se ama não pode ser amado, nem tampouco dar amor, pelo pouco – ou nenhum – conhecimento que tem do sentimento. Devemos aprender que a melhor companhia é a nossa, ou no máximo a do nosso animal de estimação. É bem certo que às vezes não queremos a melhor companhia, só a que mais nos agrada. Elas nem sempre são a mesma. Resumindo, eu não estou te dizendo para ficar sozinho (a) o resto da vida, pois você se basta. Você até se basta, mas ficar sozinho (a) é opção. Só te peço para não banalizar o verbo amar, que é o mais lindo de todos. Não banalize a si próprio, não se negue amor. Ame-se de todas as formas, conheça-se profundamente e você estará preparado para dividir esse amor – que estará transbordando em você - com outro alguém.

2.01.2007

Páginas de que vida?

Novelas do Manuel Carlos sempre despertam em mim certa revolta e hoje aproveito um acesso de mau-humor – possivelmente causado pela minha nova dieta – para soltar minha língua e dizer que podem até ser novelas com um ibope altíssimo, mas estão bem longe da realidade da maioria dos brasileiros que perdem seu tempo assistindo-as.
Ou você nunca reparou que mesmo o núcleo “pobre” da novela tem mais dinheiro que você?
A parte da novela que fica mais próxima da realidade do público alvo são os depoimentos no final de cada capítulo, com mães de deficientes que não se parecem nadica de nada com a Helena da vez, ex-mulheres de alcoólatras que não se dão ao luxo de fazer nada o dia inteiro como a personagem da Natalia do Vale etc.
Se romanceiam – ou maquiam - a realidade, para atingir níveis mais altos de audiência, e não para te mostrar exemplos fictícios de superação e realização. A Record retrata de forma melhor o mundo real, mas cai no clichê brasileiro onde se têm dois assuntos aparentes: sertão ou favela. E o Brasil não é só isso, minha gente. Enquanto não pararmos de valorizar o pior que temos, sair disso ficará cada vez mais difícil. Temos um país tão rico em natureza e poesia, por que não retratam isso? É por isso que – se tratando de telas e polegadas – eu prefiro filmes. Esses sim, valem a pena. Basta saber escolher o que assistir.
Voltado ao tal Maneco... Não é maçante essa coisa de tudo acontecer no Leblon? Quer dizer, todas as novelas se passam lá, como se nada mais existisse. Nenhuma personagem sai do Leblon para fazer uma viajem à Paraíba, não. No caso do ator ficar doente, a personagem vai fazer cursos no exterior.
É possível que nos identifiquemos com alguns problemas e conflitos mostrados na novela, justamente por que se trata de conflitos e problemas universais. Quem não tem problemas no casamento? Quem não tem problemas com os filhos? Quem não conhece alguém que teve filho antes mesmo de deixar de ser criança?
E é por isso que eu digo que ver novela não leva a lugar algum. Nada que se mostra lá é exclusivo, nem mesmo a beleza dos atores e atrizes. E para quem tem a desculpa de que assistir novelas é como uma fuga do mundo real e das dificuldades do dia-a-dia, eu digo que é até uma boa desculpa. Mas quem é bom em desculpas não é bom em mais nada.
Tome cuidado para não perder muito tempo de sua vida assistindo o sucesso de outros, enquanto você pode correr atrás do seu.

1.27.2007

Como sempre



O último ônibus ainda não tinha passado, então não tive problemas em voltar para casa. Eu tinha dinheiro trocado para pagar a passagem, sendo assim eu não tive que ficar esperando troco e pude me adiantar para sentar em um bom lugar lá na frente. Preocupação inútil, o penúltimo ônibus nunca está cheio. Gosto de sentar ao lado da janela para poder observar tudo que corre lá fora e sentir o vento, mas quase nunca o faço. Não gosto que se sentem ao meu lado, dificulta a saída, me sinto presa. Então eu sempre sento na cadeira do corredor mesmo. Ainda dá pra ver as coisas lá fora, mas o vento não é o mesmo. Nada é perfeito.
Caíam mais pingos do céu do que parecia de dentro do ônibus, pude perceber isso ao sair dele e ter que caminhar até minha casa. Cinco minutos, no máximo. Em cinco minutos a chuva te molha. A chuva te molha em bem menos tempo que isso. Tenho que andar com um guarda-chuva na bolsa nessa época do ano, digo de mim para mim. Não surte muito efeito. Meu poder de persuasão não funciona muito bem em noites de chuva. É difícil ser convincente quando chove. Confira.
Já terminei de ler aquele livro, e os que encomendei pela Internet ainda não chegaram. É bem certo que tenho alguns livros na fila a um bom tempo para serem lidos. Estão tão ao meu alcance – logo ali na estante – que se tornam desinteressantes com o passar do tempo. Sinto ter que confessar isso. Por que isso não acontece no caso de refrigerantes e brigadeiro?
São agora quase dezoito anos de sonhos. Tenho certa dificuldade em julgar onde se é melhor estar. No imaginário ou na – suposta – realidade. Tenho até dificuldade de distingui-los. Sinto-me uma ruga personificada. Crise dos dezoito? Acho difícil. Todos que ainda não chegaram a essa idade sonham com isso. Deve ser porque na maioria das vezes, quando se pensa em dezoito anos, se pensa logo em liberdade. Que pensamento estúpido! Mas desse papo eu estou cheia.
Sempre gostei de acreditar na sorte, no acaso. Me encanta ficar relembrando o caminho que fiz para obter alguns resultados. Uma coisa sempre desencadeia em outra e no final das contas tudo é bem previsível, com o tempo passa a ser até óbvio. Quando atiro uma pedra no lago eu sei que barulho vai fazer. Basta saber prever.

1.22.2007

Para saberem quem sou:

Permita que eu me apresente

Eu gosto de observar de longe. Contemplar, para depois descrever. Eu gosto de ganhar, e perder só é difícil nos primeiros 20 minutos, depois o sentimento de incapacidade passa. Não cultivo sensações por muito tempo.
Eu gosto dos dias de chuva porque é uma desculpa que a natureza me proporciona - de graça - para não sair de casa. E gosto dos dias de sol para ligar o ventilador no nível máximo e me cobrir com um edredom.
Eu gosto de ajudar e confesso que tenho certa aversão a receber ajuda. Quando procuro um serviço bem-feito, a melhor pessoa para realizá-lo sou eu.
Eu sonho muito. Sonho com tudo. Desde sonhos que são um “replay” do meu dia, até sonhos em que o protagonista é o Wando.
Eu gosto de conversar com pessoas mais velhas, elas realmente têm muito mais a ensinar do que imaginamos. Têm histórias fantásticas e sempre sabem de alguma receita de chá para qualquer mal.
Gosto de conversar com crianças, que me surpreendem por ter a mesma quantidade de histórias fantásticas que têm os mais velhos. Elas não sabem muitas receitas de chá, mas sabem o endereço do Coelhinho da Páscoa, têm amigos que moram na descarga, inimigos que moram no guarda-roupa... E por aí vai.
Eu gosto de conversar com os cachorros, pois eles são a prova viva de que ouvir é tudo. Porque eles são os que mais fazem festa quando chegamos em casa. Porque eles não são frescos. Faltou água, eles bebem a da privada. Encheu o saco, eles rosnam. Continuou enchendo o saco, eles mordem. Tudo é mais simples na vida do cão.
Gosto de filmes, por que eles servem de inspiração para a vida. Gosto de música pelo mesmo motivo. Gosto de livros quando me faltam pessoas mais velhas para bater papo. O livro não pode ser mais inteligente que a sabedoria...
Eu me admiro cada vez mais com as pessoas, de um modo positivo ou não. Gosto de gente. Gosto de vê-los de um modo coletivo e depois, individual. Eu li que cada ser humano é uma humanidade individual.
Gosto de ter uma rotina. As coisas têm seu lugar.
Gosto muito de escrever, mas a maioria das coisas que escrevo só eu leio.
Gosto de acreditar que a única liberdade que existe é a de pensar. Algumas coisas são nossas, mas precisamos conquistá-las.